sábado, 22 de junho de 2013

Livro #1: Drácula (1897)


Se tem alguém que os vampiros e a cultura vampiresca em geral devem algum favor, este alguém, na minha opinião seria o escritor irlândes Bram Stoker, que escreveu essa obra prima. Drácula é um romance/terror que tem como vilão e personagem principal Conde Vlad Drakul, mais conhecido como Conde Drácula. A história começa quando Jonathan Harker , um corretor de imóveis inglês, é convocado a para ir a uma remota região da Transilvânia, lar de lendas e mitos sobre fantasmas e criaturas tenebrosas, a pedido de um certo conde, de nome Drácula. Convidado a ficar por um tempo no castelo de Conde Drácula, Jonathan começa a notar coisas estranhas, não só no lugar onde se encontra por motivos de trabalho, mas também na figura sinistra de seu anfitrião e suas atitudes suspeitas. Logo, percebe que sua vida e a de todos os que conhece e ama correm extremo perigo quando descobre que Conde Drácula, na verdade, é um vampiro; ser mitológico que se alimenta de sangue humano e possui poderes sobrenaturais e diabólicos, entre eles a vida eterna. Preso no castelo de Drácula, Jonathan precisa correr contra o tempo e lutar contra o medo e o terror para escapar do castelo e achar um jeito de destruir Drácula e impedir seus planos malignos.

Este foi um dos primeiros livros clássicos de terror que li. Se compará-lo aos livros e contos de hoje, o leitor pode achar que a história é uma "brincadeira de criança" devido a diversos fatores, principalmente comportamentais e ideológicos dos personagens da história. Apesar do livro ter sido publicado no século 19 e ter tido várias adaptações de linguagem e escrita, recomendo a leitura deste livro, principalmente para os amantes das histórias sobre vampiros. O interessante é que o autor passou longos anos pesquisando as lendas, o folclore e os mitos romenos sobre vampiros. Para criar o personagem Drácula, o autor se inspirou, também, em um personagem real da História chamado Vlad III, mais conhecido como Vlad, o Empalador. Este foi um príncipe turco que governou a Valáquia, uma província histórica romena, que sofreu com guerras contra o Império Otomano e o avanço dos turcos sobre a Europa. Vlad III participou em muitas destas guerras e era conhecido e temido pelos seus inimigos devido o hábito de empalá-los ainda vivos e deixá-los morrer em agonia e seu comportamento sádico e cruel quando punia crimes ou matava soldados inimigos. Tais atrocidades criaram uma fama e uma aura de terror sobre Vlad, de forma que era extremamente temido, tanto pelos inimigos quanto pelos seus súditos. Outra lenda acerca de Vlad III era o fato de beber o sangue de seus inimigos ou de animais para obter força e poder.

O clima do livro é soturno, gótico e sombrio em muitos momentos. É considerado, também, um romance epistolar, pois os capítulos são escritos pelos personagens através de cartas, diários, gravações e anotações. Isto torna o enredo mais interessante, na minha opinião, pois todos os pontos de vista dos personagens sobre os acontecimentos são postos para que o leitor tire suas próprias conclusões e tenha um melhor conhecimento do que está acontecendo. Enquanto temos Jonathan preso no castelo de Drácula, absorto em pensamentos sombrios sobre o lugar e tentando achar um jeito de sair, temos sua futura esposa, Mina Harker, preocupada com a ausência demorada de seu noivo. Outro personagem, que não posso deixar de citar, é Abraham van Hellsing, um médico extremamente renomado, inteligente e perspicaz que toma conhecimento dos fatos estranhos que vem ocorrendo quando é chamado para tratar da saúde da amiga de Mina, Lucy, acometida de uma "doença" misteriosa. 

Enfim, é um livro relativamente longo, mas é leitura obrigatória para os amantes do terror, suspense e destes seres sinistros sugadores de sangue. A obra também serviu de inspiração para inúmeras adaptações em diversas áreas: cinema, quadrinhos, seriados, livros e até música. Alguns dos exemplos mais famosos são os filmes Drácula de Bram Stoker (1992), Nosferatu - Uma Sinfonia de Horror (1922) e Drácula (1931), com o ator Bela Lugosi no papel de Conde Drácula. Na minha humilde opinião, esta obra-prima vale a pena ser lida e relida diversas vezes.

Este é o link para download do livro:



Boa Leitura! E não deixem de comentar o que acharam do livro!




Conto #1: O Gato Preto (Edgar Allan Poe)


Não espero nem peço que se dê crédito à história sumamente extraordinária e, no entanto, bastante doméstica que vou narrar. Louco seria eu se esperasse tal coisa, tratando-se de um caso que os meus próprios sentidos se negam a aceitar. Não obstante, não estou louco e, com toda a certeza, não sonho. Mas amanhã morro e, por isso, gostaria, hoje, de aliviar o meu espírito. Meu propósito imediato é apresentar ao mundo, clara e sucintamente, mas sem comentários, uma série de simples acontecimentos domésticos. Devido a suas conseqüências, tais acontecimentos me aterrorizaram, torturaram e destruíram. No entanto, não tentarei esclarecê-los. Em mim, quase não produziram outra coisa senão horror — mas, em muitas pessoas, talvez lhes pareçam menos terríveis que grotesco. Talvez, mais tarde, haja alguma inteligência que reduza o meu fantasma a algo comum — uma inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que, a minha, que perceba, nas circunstâncias a que me refiro com terror, nada mais do que uma sucessão comum de causas e efeitos muito naturais.

Desde a infância, tornaram-se patentes a docilidade e o sentido humano de meu caráter. A ternura de meu coração era tão evidente, que me tomava alvo dos gracejos de meus companheiros. Gostava, especialmente, de animais, e meus pais me permitiam possuir grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e jamais me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer ou os acariciava. Com os anos, aumentou esta peculiaridade de meu caráter e, quando me tomei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. Aos que já sentiram afeto por um cão fiel e sagaz, não preciso dar-me ao trabalho de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que se pode ter com isso. Há algo, no amor desinteressado, e capaz de sacrifícios, de um animal, que toca diretamente o coração daqueles que tiveram ocasiões freqüentes de comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade de um simples homem.

Casei cedo, e tive a sorte de encontrar em minha mulher disposição semelhante à minha. Notando o meu amor pelos animais domésticos, não perdia a oportunidade de arranjar as espécies mais agradáveis de bichos. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um cão, coelhos, um macaquinho e um gato.

Este último era um animal extraordinariamente grande e belo, todo negro e de espantosa sagacidade. Ao referir-se à sua inteligência, minha mulher, que, no íntimo de seu coração, era um tanto supersticiosa, fazia freqüentes alusões à antiga crença popular de que todos os gatos pretos são feiticeiras disfarçadas. Não que ela se referisse seriamente a isso: menciono o fato apenas porque aconteceu lembrar-me disso neste momento.

Pluto — assim se chamava o gato — era o meu preferido, com o qual eu mais me distraía. Só eu o alimentava, e ele me seguia sempre pela casa. Tinha dificuldade, mesmo, em impedir que me acompanhasse pela rua.

Nossa amizade durou, desse modo, vários anos, durante os quais não só o meu caráter como o meu temperamento — enrubesço ao confessá-lo — sofreram, devido ao demônio da intemperança, uma modificação radical para pior. Tomava-me, dia a dia, mais taciturno, mais irritadiço, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Sofria ao empregar linguagem desabrida ao dirigir-me à minha mulher. No fim, cheguei mesmo a tratá-la com violência. Meus animais, certamente, sentiam a mudança operada em meu caráter. Não apenas não lhes dava atenção alguma, como, ainda, os maltratava. Quanto a Pluto, porém, ainda despertava em mim consideração suficiente que me impedia de maltratá-lo, ao passo que não sentia escrúpulo algum em maltratar os coelhos, o macaco e mesmo o cão, quando, por acaso ou afeto, cruzavam em meu caminho.

Meu mal, porém, ia tomando conta de mim — que outro mal pode se comparar ao álcool? — e, no fim, até Pluto, que começava agora a envelhecer e, por conseguinte, se tomara um tanto rabugento, até mesmo Pluto começou a sentir os efeitos de meu mau humor.

Certa noite, ao voltar a casa, muito embriagado, de uma de minhas andanças pela cidade, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Apanhei-o, e ele, assustado ante a minha violência, me feriu a mão, levemente, com os dentes. Uma fúria demoníaca apoderou-se, instantaneamente, de mim. Já não sabia mais o que estava fazendo. Dir-se-ia que, súbito, minha alma abandonara o corpo, e uma perversidade mais do que diabólica, causada pela genebra, fez vibrar todas as fibras de meu ser. Tirei do bolso um canivete, abri-o, agarrei o pobre animal pela garganta e, friamente, arranquei de sua órbita um dos olhos!

Enrubesço, estremeço, abraso-me de vergonha, ao referir-me, aqui, a essa abominável atrocidade.
Quando, com a chegada da manhã, voltei à razão — dissipados já os vapores de minha orgia noturna — , experimentei, pelo crime que praticara, um sentimento que era um misto de horror e remorso; mas não passou de um sentimento superficial e equívoco, pois minha alma permaneceu impassível. Mergulhei novamente em excessos, afogando logo no vinho a lembrança do que acontecera.
Entrementes, o gato se restabeleceu, lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto horrendo, mas não parecia mais sofrer qualquer dor. Passeava pela casa como de costume, mas, como bem se poderia esperar, fugia, tomado de extremo terror, à minha aproximação. Restava-me ainda o bastante de meu antigo coração para que, a princípio, sofresse com aquela evidente aversão por parte de um animal que, antes, me amara tanto. Mas esse sentimento logo se transformou em irritação. E, então, como para perder-me final e irremissivelmente, surgiu o espírito da perversidade. Desse espírito, a filosofia não toma conhecimento. Não obstante, tão certo como existe minha alma, creio que a perversidade é um dos impulsos primitivos do coração humano - uma das faculdades, ou sentimentos

primários, que dirigem o caráter do homem. Quem não se viu, centenas de vezes, a cometer ações vis ou estúpidas, pela única razão de que sabia que não devia cometê-las? Acaso não sentimos uma inclinação constante mesmo quando estamos no melhor do nosso juízo, para violar aquilo que é lei, simplesmente porque a compreendemos como tal? Esse espírito de perversidade, digo eu, foi a causa de minha queda final. O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma, de violentar sua própria natureza, e fazer o mal pelo próprio mal, foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício que infligira ao inofensivo animal. Uma manhã, a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso. Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele.

Enforquei-o porque sabia que estava cometendo um pecado — um pecado mortal que comprometia a minha alma imortal, afastando-a, se é que isso era possível, da misericórdia infinita de um Deus infinitamente misericordioso e infinitamente terrível.

Na noite do dia em que foi cometida essa ação tão cruel, fui despertado pelo grito de "fogo!". As cortinas de minha cama estavam em chamas. Toda a casa ardia. Foi com grande dificuldade que minha mulher, uma criada e eu conseguimos escapar do incêndio. A destruição foi completa. Todos os meus bens terrenos foram tragados pelo fogo, e, desde então, me entreguei ao desespero.

Não pretendo estabelecer relação alguma entre causa e efeito - entre o desastre e a atrocidade por mim cometida. Mas estou descrevendo uma seqüência de fatos, e não desejo omitir nenhum dos elos dessa cadeia de acontecimentos. No dia seguinte ao do incêndio, visitei as ruínas. As paredes, com exceção de uma apenas, tinham desmoronado. Essa única exceção era constituída por um fino tabique interior, situado no meio da casa, junto ao qual se achava a cabeceira de minha cama. O reboco havia, aí, em grande parte, resistido à ação do fogo — coisa que atribuí ao fato de ter sido ele construído recentemente.
Densa multidão se reunira em torno dessa parede, e muitas pessoas examinavam, com particular atenção e minuciosidade, uma parte dela, As palavras "estranho!", "singular!", bem como outras expressões semelhantes, despertaram-me a curiosidade. Aproximei-me e vi, como se gravada em baixo-relevo sobre a superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma exatidão verdadeiramente maravilhosa. Havia uma corda em tomo do pescoço do animal.

Logo que vi tal aparição — pois não poderia considerar aquilo como sendo outra coisa — , o assombro e terror que se me apoderaram foram extremos. Mas, finalmente, a reflexão veio em meu auxílio. O gato, lembrei-me, fora enforcado num jardim existente junto à casa. Aos gritos de alarma, o jardim fora imediatamente invadido pela multidão. Alguém deve ter retirado o animal da árvore, lançando-o, através de uma janela aberta, para dentro do meu quarto. Isso foi feito, provavelmente, com a intenção de despertar-me. A queda das outras paredes havia comprimido a vítima de minha crueldade no gesso recentemente colocado sobre a parede que permanecera de pé. A cal do muro, com as chamas e o amoníaco desprendido da carcaça, produzira a imagem tal qual eu agora a via.

Embora isso satisfizesse prontamente minha razão, não conseguia fazer o mesmo, de maneira completa, com minha consciência, pois o surpreendente fato que acabo de descrever não deixou de causar-me, apesar de tudo, profunda impressão. Durante meses, não pude livrar-me do fantasma do gato e, nesse espaço de tempo, nasceu em meu espírito uma espécie de sentimento que parecia remorso, embora não o fosse. Cheguei, mesmo, a lamentar a perda do animal e a procurar, nos sórdidos lugares que então frequentava, outro bichano da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.

Uma noite, em que me achava sentado, meio aturdido, num antro mais do que infame, tive a atenção despertada, subitamente, por um objeto negro que jazia no alto de um dos enormes barris, de genebra ou rum, que constituíam quase que o único mobiliário do recinto. Fazia já alguns minutos que olhava fixamente o alto do barril, e o que então me surpreendeu foi não ter visto antes o que havia sobre o mesmo. Aproximei-me e toquei-o com a mão. Era um gato preto, enorme — tão grande quanto Pluto — e que, sob todos os aspectos, salvo um, se assemelhava a ele. Pluto não tinha um único pelo branco em todo o corpo — e o bichano que ali estava possuía uma mancha larga e branca,embora de forma indefinida, a cobrir-lhe quase toda a região do peito. 

Ao acariciar-lhe o dorso, ergueu-se imediatamente, ronronando com força e esfregando-se em minha mão, como se a minha atenção lhe causasse prazer. Era, pois, o animal que eu procurava. Apressei-me em propor ao dono a sua aquisição, mas este não manifestou interesse algum pelo felino. Não o conhecia; jamais o vira antes.

Continuei a acariciá-lo e, quando me dispunha a voltar para casa, o animal demonstrou disposição de acompanhar-me. Permiti que o fizesse — detendo-me, de vez em quando, no caminho, para acariciá-lo. Ao chegar, sentiu-se imediatamente à vontade, como se pertencesse a casa, tomando-se, logo, um dos bichanos preferidos de minha mulher.
De minha parte, passei a sentir logo aversão por ele. Acontecia, pois, justamente o contrário do que eu esperava. Mas a verdade é que - não sei como nem por quê — seu evidente amor por mim me desgostava e aborrecia.

Lentamente, tais sentimentos de desgosto e fastio se converteram no mais amargo ódio. Evitava o animal. Uma sensação de vergonha, bem como a lembrança da crueldade que praticara, impediam-me de maltratá-lo fisicamente. Durante algumas semanas, não lhe bati nem pratiquei contra ele qualquer violência; mas, aos poucos - muito gradativamente — , passei a sentir por ele inenarrável horror, fugindo, em silêncio, de sua odiosa presença, como se fugisse de uma peste.

Sem dúvida, o que aumentou o eu horror pelo animal foi a descoberta, na manhã do dia seguinte ao que o levei para casa, que, como Pluto, também havia sido privado de um dos olhos. Tal circunstância, porém, apenas contribuiu para que minha mulher sentisse por ele maior carinho, pois, como já disse, era dotada, em alto grau, dessa ternura de sentimentos que constituíra, em outros tempos, um de meus traços principais, bem como fonte de muitos de meus prazeres mais simples e puros. 

No entanto, a preferência que o animal demonstrava pela minha pessoa parecia aumentar em razão direta da aversão que sentia por ele. Seguia-me os passos com uma pertinácia que dificilmente poderia fazer com que o leitor compreendesse. Sempre que me sentava, enrodilhava-se embaixo de minha cadeira, ou me saltava ao colo, cobrindo-me com suas odiosas carícias. Se me levantava para andar, metia-se-me entre as pemas e quase me derrubava, ou então, cravando suas longas e afiadas garras em minha roupa, subia por ela até o meu peito. Nessas ocasiões, embora tivesse ímpetos de matá-lo de um golpe, abstinha-me de fazê-lo devido, em parte, à lembrança de meu crime anterior, mas, sobretudo — apresso-me a confessá-lo — , pelo pavor extremo que o animal me despertava.

Esse pavor não era exatamente um pavor de mal físico e, contudo, não saberia defini-lo de outra maneira. Quase me envergonha confessar — sim, mesmo nesta cela de criminoso — , quase me envergonha confessar que o terror e o pânico que o animal me inspirava eram aumentados por uma das mais puras fantasias que se possa imaginar. Minha mulher, mais de uma vez, me chamara a atenção para o aspecto da mancha branca a que já me referi, e que constituía a única diferença visível entre aquele estranho animal e o outro, que eu enforcara. O leitor, decerto, se lembrará de que aquele sinal, embora grande, tinha, a princípio, uma forma bastante indefinida. Mas, lentamente, de maneira quase imperceptível — que a minha imaginação, durante muito tempo, lutou por rejeitar como fantasiosa —, adquirira, por fim, uma nitidez rigorosa de contornos. Era, agora, a imagem de um objeto cuja menção me faz tremer... E, sobretudo por isso, eu o encarava como a um monstro de horror e repugnância, do qual eu, se tivesse coragem, me teria livrado. Era agora, confesso, a imagem de uma coisa odiosa, abominável: a imagem da forca! Oh, lúgubre e terrível máquina de horror e de crime, de agonia e de morte!
Na verdade, naquele momento eu era um miserável — um ser que ia além da própria miséria da humanidade. Era uma besta-fera, cujo irmão fora por mim desdenhosamente destruído... uma besta-fera que se engendrara em mim, homem feito à imagem do Deus Altíssimo. Oh, grande e insuportável infortúnio! Ai de mim! Nem de dia, nem de noite, conheceria jamais a bênção do descanso! Durante o dia, o animal não me deixava a sós um único momento; e, à noite, despertava de hora em hora, tomado do indescritível terror de sentir o hálito quente da coisa sobre o meu rosto, e o seu enorme peso — encarnação de um pesadelo que não podia afastar de mim — pousado eternamente sobre o meu coração!

Sob a pressão de tais tormentos, sucumbiu o pouco que restava em mim de bom. Pensamentos maus converteram-se em meus únicos companheiros — os mais sombrios e os mais perversos dos pensamentos. Minha rabugice habitual se transformou em ódio por todas as coisas e por toda a humanidade — e enquanto eu, agora, me entregava cegamente a súbitos, freqüentes e irreprimíveis acessos de cólera, minha mulher - pobre dela! - não se queixava nunca convertendo-se na mais paciente e sofredora das vítimas.

Um dia, acompanhou-me, para ajudar-me numa das tarefas domésticas, até o porão do velho edifício em que nossa pobreza nos obrigava a morar. O gato seguiu-nos e, quase fazendo-me rolar escada abaixo, me exasperou a ponto de perder o juízo. Apanhando uma machadinha e esquecendo o terror pueril que até então contivera minha mão, dirigi ao animal um golpe que teria sido mortal, se atingisse o alvo. Mas minha mulher segurou-me o braço, detendo o golpe. Tomado, então, de fúria demoníaca, livrei o braço do obstáculo que o ha e cravei-lhe a machadinha no cérebro. Minha mulher caiu morta instantaneamente, sem lançar um gemido.

Realizado o terrível assassínio, procurei, movido por súbita resolução, esconder o corpo. Sabia que não poderia retirá-lo da casa, nem de dia nem de noite, sem correr o risco de ser visto pelos vizinhos. Ocorreram-me vários planos. Pensei, por um instante, em cortar o corpo em pequenos pedaços e destruí-los por meio do fogo. Resolvi, depois, cavar uma fossa no chão da adega. Em seguida, pensei em atirá-lo ao poço do quintal. Mudei de idéia e decidi metê-lo num caixote, como se fosse uma mercadoria, na forma habitual, fazendo com que um carregador o retirasse da casa. Finalmente, tive uma idéia que me pareceu muito mais prática: resolvi emparedá-lo na adega, como faziam os monges da Idade Média com as suas vítimas.
Aquela adega se prestava muito bem para tal propósito. As paredes não haviam sido construídas com muito cuidado e, pouco antes, haviam sido cobertas, em toda a sua extensão, com um reboco que a umidade impedira de endurecer. Ademais, havia uma saliência numa das paredes, produzida por alguma chaminé ou lareira, que fora tapada para que se assemelhasse ao resto da adega. Não duvidei de que poderia facilmente retirar os tijolos naquele lugar, introduzir o corpo e recolocá-los do mesmo modo, sem que nenhum olhar pudesse descobrir nada que despertasse suspeita.
E não me enganei em meus cálculos. Por meio de uma alavanca, desloquei facilmente os tijolos e tendo depositado o corpo, com cuidado, de encontro à parede interior. Segurei-o nessa posição, até poder recolocar, sem grande esforço, os tijolos em seu lugar, tal como estavam anteriormente.

Arranjei cimento, cal e areia e, com toda a precaução possível, preparei uma argamassa que não se podia distinguir da anterior, cobrindo com ela, escrupulosamente, a nova parede. Ao terminar, senti-me satisfeito, pois tudo correra bem. A parede não apresentava o menor sinal de ter sido rebocada. Limpei o chão com o maior cuidado e, lançando o olhar em tomo, disse, de mim para comigo: "Pelo menos aqui, o meu trabalho não foi em vão".

O passo seguinte foi procurar o animal que havia sido a causa de tão grande desgraça, pois resolvera, finalmente, matá-lo. Se, naquele momento, tivesse podido encontrá-lo, não haveria dúvida quanto à sua sorte: mas parece que o esperto animal se alarmara ante a violência de minha cólera, e procurava não aparecer diante de mim enquanto me encontrasse naquele estado de espírito.

Impossível descrever ou imaginar o profundo e abençoado alívio que me causava a ausência de tão detestável felino. Não apareceu também durante a noite — e, assim, pela primeira vez, desde sua entrada em casa, consegui dormir tranqüila e profundamente. Sim, dormi mesmo com o peso daquele assassínio sobre a minha alma.

Transcorreram o segundo e o terceiro dia — e o meu algoz não apareceu. Pude respirar, novamente, como homem livre. O monstro, aterrorizado fugira para sempre de casa. Não tomaria a vê-lo! Minha felicidade era infinita!
A culpa de minha tenebrosa ação pouco me inquietava. Foram feitas algumas investigações, mas respondi prontamente a todas as perguntas. Procedeu-se, também, a uma vistoria em minha casa, mas, naturalmente, nada podia ser descoberto. Eu considerava já como coisa certa a minha felicidade futura.

No quarto dia após o assassinato, uma caravana policial chegou, inesperadamente, a casa, e realizou, de novo, rigorosa investigação. Seguro, no entanto, de que ninguém descobriria jamais o lugar em que eu ocultara o cadáver, não experimentei a menor perturbação. Os policiais pediram-me que os acompanhasse em sua busca. Não deixaram de esquadrinhar um canto sequer da casa. Por fim, pela terceira ou quarta vez, desceram novamente ao porão. Não me alterei o mínimo que fosse. Meu coração batia calmamente, como o de um inocente. Andei por todo o porão, de ponta a ponta. Com os braços cruzados sobre o peito, caminhava, calmamente, de um lado para outro. A polícia estava inteiramente satisfeita e preparava-se para sair. O júbilo que me inundava o coração era forte demais para que pudesse contê-lo. Ardia de desejo de dizer uma palavra, uma única palavra, à guisa de triunfo, e também para tomar duplamente evidente a minha inocência.

— Senhores — disse, por fim, quando os policiais já subiam a escada — , é para mim motivo de grande satisfação haver desfeito qualquer suspeita. Desejo a todos os senhores ótima saúde e um pouco mais de cortesia. Diga-se de passagem, senhores, que esta é uma casa muito bem construída... (Quase não sabia o que dizia, em meu desejo de falar com naturalidade.) Poderia, mesmo, dizer que é uma casa excelentemente construída. Estas paredes — os senhores já se vão? — , estas paredes são de grande solidez. Nessa altura, movido por pura e frenética fanfarronada, bati com força, com a bengala que tinha na mão, justamente na parte da parede atrás da qual se achava o corpo da esposa de meu coração.

Que Deus me guarde e livre das garras de Satanás! Mal o eco das batidas mergulhou no silêncio, uma voz me respondeu do fundo da tumba, primeiro com um choro entrecortado e abafado, como os soluços de uma criança;

depois, de repente, com um grito prolongado, estridente, contínuo, completamente anormal e inumano. Um uivo,

um grito agudo, metade de horror, metade de triunfo, como somente poderia ter surgido do inferno, da garganta dos condenados, em sua agonia, e dos demônios exultantes com a sua condenação.

Quanto aos meus pensamentos, é loucura falar. Sentindo-me desfalecer, cambaleei até à parede oposta. Durante um instante, o grupo de policiais deteve-se na escada, imobilizado pelo terror. Decorrido um momento, doze braços vigorosos atacaram a parede, que caiu por terra. O cadáver, já em adiantado estado de decomposição, e coberto de sangue coagulado, apareceu, ereto, aos olhos dos presentes. Sobre sua cabeça, com a boca vermelha dilatada e o único olho chamejante, achava-se pousado o animal odioso, cuja astúcia me levou ao assassínio e cuja voz reveladora me entregava ao carrasco. Eu havia emparedado o monstro dentro da tumba!

Autor: Edgar Allan Poe

Conto #2: O Fantasma no Espelho

Eu não acreditava em fantasmas ou em nada do gênero. Sempre achei bobagem aquelas histórias de fantasmas, de espíritos e casas mal assombradas e pessoas sendo perseguidas por almas penadas ou demônios. Mas depois do que aconteceu comigo, eu nunca mais duvidei da existência deles. Não depois do que meus olhos viram. Podem rir, mas eu sei o que eu vi e sei que não enlouqueci. 

Eu estava na casa da minha tia e era noite quando tudo aconteceu. Estava chovendo pra caramba e estava muito frio. Era inverno e normalmente chove bastante nessa época por aqui. Eu estava assistindo televisão e todo mundo tinha saído.De repente, faltou luz e, em seguida, um barulho de um trovão ecoou no ar. Foi tão forte o barulho que mais parecia uma explosão. Lógico que levei um baita susto, pois tudo aconteceu do nada e o pior era que tinha faltado luz. Tava tudo na maior escuridão e eu estava sozinha na casa da minha tia. Usei a luz do meu celular para achar as velas e o isqueiro (a luz do celular era muito fraquinha). Achei uma só. Acendi a vela e o barulho de chuva continuava  e  ventava muito também. A casa parecia um cenário de filme de terror.Foi nessa hora que me deu vontade de ir no banheiro. Maldita hora em que fui no banheiro. Devia ter mijado nas calças. Melhor isso do que o que eu iria ver depois.

Levei um copo para colocar a vela em cima e fui até o banheiro. Até aí nada de anormal, tudo estava "tranquilo" , mas quando abri o armário do banheiro para pegar o sabonete e fechei-o, eu vi algo que me paralisou e gelou o meu sangue completamente. O armário em que peguei o sabonete tem um espelho e olhei nele sem querer e vi o rosto do meu avô falecido. Só que o rosto dele estava coberto de vermes e também estava desfigurado, como se fosse o fantasma do cadáver do meu avô. Foi algo que, na hora, me fez congelar e depois não me lembro de mais nada. A única coisa que me lembro depois foi de meus tios me acordaram e perguntarem, assustados, o que havia acontecido e por que eu estava estirada no chão do banheiro.

Aos poucos, fui voltando do meu estado de choque e , por um momento, achei que aquilo tudo não passava de pesadelo mas era a mais pura realidade. Eu tinha visto o rosto do meu falecido avô, que morrera anos atrás. Só depois soube onde e como ele morrera e quando o soube, nunca mais voltei na casa da minha tia e nunca mais ousei olhar para espelhos, especialmente os de armários em banheiros. Depois disso, nunca  mais fui a mesma depois que soube da existência de fantasmas. Eles estão entre nós e, infelizmente, são reais.

Relato enviado por Guilherme Silva

Creepypasta #1: Usuário Fantasma

A internet está cheia de coisas estranhas e bizarras. Muitas delas chegam a perturbar psicológica e emocionalmente muitas pessoas, mas creio que, nesse caso, a experiência vivida na pele pode ser mais perturbadora ainda. Eis o relato de uma pessoa que provou isso:

"Nem sei por onde começar. Estou atordoado até agora. Como isso é possível ? Fantasmas realmente existem? Só pode ter sido um maldito troller! Mas não posso deixar de falar o que aconteceu. Mesmo perturbado do jeito que estou, preciso contar...

Eu conheci uma garota em uma fanpage de terror no facebook. Eu adicionei ela no meu perfil e ela me adicionou no dela. Tínhamos praticamente os mesmos gostos: filmes de terror com muito sangue, histórias de fantasmas, assassinos em série, lendas urbanas e, lógico, creepypastas. Tínhamos muito em comum, sério. Achei até que poderia rolar algo entre nós, então combinamos de nos encontrar. Ela me deu o endereço da casa dela e no dia seguinte eu fui até a casa dela.

Combinamos de assistir "Atividade Paranormal 2". Era noite. Fui até a casa dela e fui atendido por uma mulher que julguei ser a mãe dela. Expliquei a situação e achei que ela já sabia, mas não. O pior veio a seguir, quando soube que a garota com quem eu havia feito amizade havia morrido fazia 5 anos. Fui extremamente constrangedor, tanto pra mim quanto pra ela. Pra falar a verdade, foi a maior confusão. Ela começou a chorar e tive que me desculpar muito e explicar o que eu vinha fazer ali. O marido dela foi um pouco mais "frio" e me explicou a história deles.

A garota com quem eu havia feito amizade morreu vítima de um acidente. O cara esta bêbado e acabou atropelando em cheio a garota enquanto ela atravessava a rua. Havia ido no mercado comprar um lanche, de boa. Era filha única e eles sofreram muito com a  perda dela. Depois de um tempo, começaram a rolar coisas estranhas na casa, mas ele não me falou o que eram essas coisas estranhas. Me contou também que ela amava tudo sobre terror. Filmes, quadrinhos, livros e tudo mais. Passava horas na frente do pc vendo filmes de terror e lendo histórias macabras.

Saí de lá extremamente confuso. Até agora acho que foi algum maldito hacker troller que usou o perfil dela para fazer essas porcarias. Mas não sei se foi realmente isso. Algo me diz que não. Minha cabeça está girando e estou muito assustado também. Não sei se vou continuar a ver meus filmes e ler creepypastas e tudo mais. Depois dessa, estou traumatizado até agora. Acho que fantasmas realmente existem."

O que vocês acham, pessoal ? Será que tudo isso não passou de trollagem ou realmente foi um espírito querendo conversar com alguém ?